My Zimbio

Saturday, July 2, 2011

Todas são iguais. Mas só no cabelo, amigo

Xico Sá
Outro dia indaguei, com meu freudianismo de boteco, sobre o que querem as revistas femininas. Passei a observá-las cada vez mais. E entre todas as diferenças editorais possíveis, percebi no que são iguais, parecidíssimas, incrível: no capítulo cabelo.
É chamada de capa obrigatória, seja qual for o estilo, sob o sol das bancas. E estão cobertas de razão. A questão capilar é tudo na vida de uma fêmea. Dia desses mesmo, amigo, andava meio bravo com uma moça que me deixou mascando o jiló do desprezo, e, ali querendo rogar-lhe alguma praga, o que me veio à careca desmiolada foi só uma coisa: que a linda senhorita desperte todo dia em uma briga sem fim com a sua cabeleira.
Porque, irmão, nada pior para uma mulher que acorda em uma peleja sem fim com as madeixas. E tem dia que não adianta, as leis cósmicas conspiram contra os fios do cocuruto e não há milagre que dê jeito. A desalmada sempre soube dar um toque sublime e ligeiro no penteado. É que nos últimos dias do nosso romance, a testemunhei em uma peleja contra uns fios da franja que vou te contar, que embate! 
Me lembrou a luta do século, Muhammad Ali X George Foreman (1974), que ficou mais incrível ainda quando narrada pelo escritor Norman Mailer.Pense em uma guerra de dedos e mísseis imaginários contra um franjão desobediente! Ela querendo sair para uma missão acadêmica e nada dava jeito na revolta capilar, naquele fervor dos inconfidentes mineiros, naquela insurreiçao, naquela guerra dos mascates, sedição de Juazeiro em 1914, Farroupilha, Monte Castelo, guera civil espanhola, Canudos, Balaiada e todas as conjurações sobre o coro cabeludo.
No momento até tentei ajudá-la, com o máximo possível que um homem pode fazer nesse momento: dar uma força, um incentivo moral e torcer para que os deuses capilares amansem as suas fúrias e tempestades. Inevitável foi rogar essa praga ao final da nossa história. Onda passageira, só no momento, porque mal maior não merece, coisa marlinda desse mundo, encanto radicalíssimo.É, amigo, por mais que tenha o capítulo da roupa, também fundamentalíssimo para o gênero feminino, nunca a vi acordar, como as outras, blasfemando contra o armário e a sorte. 
Aí está outra questão importante para as fêmeas. Nada, porém, que se compare com os cabelos. No vestuário dá-se um jeito, mesmo que esteja economicamente desprotegida: é uma promoçãozinha, um brechó, um rearranjo, um corte & costura, um truque neo-hippye.Nos cabelos, não. É um sofrimento. Com ou sem grana. Porque se a madame vai no melhor salão da cidade, também volta ao lar doce lar com a juba até lisa, mas cheia de interrogações em todas as pontas. 
Com ou sem chapinha. Black-power, crespo, seja qual for a pegada e o estilo. Não é questão de classe social, velho Perreira, meu comunista de estimação e leitor cativo. Um dos setores que mais se dão bem na onda de consumo das classes C,D e E é o dos salões de beleza. Como canta João do Morro, fenômeno pop do Recife, “umas passam easy, outras biorene/ henê, hairfly, guarnidina e kolene”.
Ah, sem falar naquela clássica e sempre cobrada leseira masculina, a de não perceber que a mulher deu um tapa no telhado e voltou cheia das novidades para casa. Tudo bem, homem que é homem deve estar atento aos mínimos detalhes, mas com as milhões de técnicas e pequenas mudanças possíveis de hoje, nossa tarefa, caro João do Morro, ficou mais difícil do que nunca. Paz capilar na terra às moças de boa vontade!

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