My Zimbio

Thursday, June 16, 2011

ARTIGO

BLOOMSDAY 2011
João da Mata Costa


O Bloomsday faz bodas de prata com upgrade e muitas novidades.  Um projeto do professor Chico Ivan desaguou no Potengi – Liffey. Natal  teve suas vanguardas com a palestra Natal daqui a cinquenta anos do Manoel Dantas e o poema - processo. Nostros em qquer lugarmediterranicos.  Natal também tem suas graças …. um certo charme na sua decadência. Uma cidade que sofre com as atuais administrações e com as oligarquias.  Nada era perdido para Joyce e  são dos restos  que fazemos a sopa de osso ou de pedra ( mon ami ). Outros disseram de uma terra desolada. O que Joyce escreveu sobre a Irlanda eu poderia transportar para Natal. Mas, eu não sou Leopold Bloom e mesmo assim comemoro o bloomsday. A Irlanda também é bebum e ruidosa. “Terra de uma raça esquecida por Deus e oprimida pelos padres … a raça mais atrasada da Europa”. Eu também poderia dizer isso de Natal, mas eu não sou Joyce. Prefiro andar por suas vielas e bares. Freqüentar o bar de Zé Reeira e tomar uma cerveja com Zizinho, Ronnie Von e Cellina. Adentrar na garçonieri de Abimael e conversar sobre o próximo lançamento.  Lembrar das cervejas tomadas em Maria com todos os boêmios feitos porcos por Circe.
O Ulisses de James Joyce – o “blue book das eclésias”- é um livro sobre o amor. Leopold Bloom, o protagonista do romance que revolucionou a literatura universal, passa o dia perambulando por uma Irlanda (terra da ira) decadente, e tem consciência da traição de Molly Bloom. São dezesseis horas e o relógio de cuco toca … e nessa hora vesperal Molly recebe o amante em casa. “Eles são loucos para entrar de onde eles saíram”, diz Molly. Oito de setembro é o aniversário de sua amada e 16 de junho foi quando Joyce se apaixonou perdidamente por ela. As datas são muito importantes para o aquariano Joyce nascido no dia 02 de fevereiro. O tema do ciúme também está presente na sua única peça “Exílio” e no último conto de Dublinenses “The Dead” . Um dos maiores contos do século XX foi levado às telas por John Huston com o título “Os Vivos e os Mortos” (EUA 1987). No Ulisses, Joyce fala muito através dos sons. O leitor sente prazer e dor ao ouvir o som da trombeta, o suspiros das folhas, o ruído do mar e o som da água escoando no ralo da pia em espiral. A polissemia das palavras valise, da palavra montagem, da palavra ideograma encadeando novos sentidos. Joyce é um alquimista da palavra e a linguagem é o personagem principal desse imenso cipoal cheio de ruídos e labirintos que é esse enciclopédico romance Ulisses.
“ Deus é um barulho na rua”. “Todos esses ruídos convergiram numa única sensação vital para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma multidão de inimigos”. Durante o dia 16 de junho  Bloom  chega a um estado mental que é mais abnegação do que ciúme. Joyce evoluiu no tratamento desse tema desde suas primeiras criações literárias. É com uma grande pulsão verbal com que Joyce fala do amor numa feerie carnal pulsipulso. “Ele beijou os fornudos ricudos amareludos cheirudos melões do seu rabo, em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga rêga, com obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação”. Ao fim do episódio de Nausícaa (cap.13), o “relógio de cuco” informa a Bloom que ele é agora um corno. Cuco, cuco, cuco… cukoo-cloc; relógio de cuco e cuckold- corno. No final, Ulisses “retorna” para casa (Ítaca) e encontra Penélope (cama). A mulhervaginabismo onde o homem se perde e jamais retorna. O romance encerra com um pungente monólogo de Molly Bloom. “yes, I said yes I will Yes oui jái dit oui je veux bien. SIM EU QUERO SIMS.
Vagueando por Natal tenho o meu Johnsday.  No restaurante da universidade converso sobre Flaubert. Um grande escritor admirado por Joyce. Alguém que buscou a impessoalidade na sua literatura. Em Joyce, impossível separar a vida do opus. No cemitério do Alecrim entro no reino de Hades e rezo um cantochão na igreja do Galo. Lanço as cartas do Tarot  e tiro a carta 15.  Blake e “A Canção dos Loureiros” do Édouard Dujardin. Sigo o fluxo de consciência. Caminho por suas ruas e vielas esburacadas très bian aussi. Lembro da escola de pé no chão nas Rocas e da fábrica de pregos das Quintas onde fui menino. Depois olhar o Potengi e namorar na pedra do Rosário. Em Ponta Negra bato uma brahma. Na Padre Pinto, saindo do bar do coelho,  olho o rio que parece o Liffey. Molly Bllom nessa hora deve estar me traindo. Capitu also e Otelo coitado. São quatro horas e nessa hora alguém está sendo chifrado. Tudo que é proibido é bom. Clô telefona para falar de Shakespeare e de Hamlet, a Monalisa da literatura : Words, words, words….cama camisola ave Maria cheia de graxa. Lê em voz muito alta o Finnegans Wake. Literatura de notívagos e bruxos. Fim again Fim . Nunquam satis discitur. O eterno ciclo viquiano do movimento circular divino. Só com compaixão, humor e lirismo vamos conseguir sangrar os mares desse Potengi desmamado e poluído numa das esquinas do mundo onde meu amigo “foi feliz e se deu bem”. Parafraseando Stephen Dedalus no Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce, referindo-se á Irlanda, eu diria de Natal (eu que já sou meã): “ Natal é uma porca velha que devora suas crias”.

Filmografia Joyciana
       A Portrait of the Artist as a Young Man (1979; colorido, 93 min. ) Dirigido por Joseph Strick. Com Bosco Hogan, T. P. McKenna e John Gielgud.
       The Dead (1987; colorido, 82 min. ) Dirigido por John Huston. Com Anjelica Huston and Donal McCann.
     Ulysses (1967; preto e branco, 124 min.) Dirigido por Joseph Strick. Com Barbara Jefford, Milo O'Shea, Maurice Roeves e Fionnula Flanagan.
    Nora ([2000, colorido, 106 min.) Dirigido por Pat Murphy. Com Ewan McGregor e Susan Lynch.
      Bloom (2004, colorido, 113 min. )  Dirigido por Sean Walsh. Com Stephen Rea, Angeline Ball, Hugh O´Conor e Patrick Bergin.
         James Joyce's Dublin: The Ulysses Tour (2003)

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